A) Saúde, violência e assédio na pauta dos
debates
- Painel
da professora da Universidade de Brasília, Ana Magnólia
Mendes
A pesquisadora
abordou os efeitos da cobrança por produtividade e o
estresse pós-traumático. Para ela, é uma
tendência cada vez mais constante no serviço bancário
a adoção dos chamados modos perversos de gestão,
tais como o ‘produtivismo’ e o ‘gerencialismo’.
“Esses modos perversos de gestão se constituem
em verdadeiras ideologias e estão na raiz de muitos dos
problemas do ambiente de trabalho, tais como a busca desmedida
de desempenho, a cobrança excessiva da perfeição
no trabalho e as relações autoritárias
e competitivas entre os trabalhadores bancários”.
Segundo
Ana, as questões são geradas coletivamente, porém
analisadas individualmente. “Com isso, o trabalhador deixa
de se comunicar, de enxergar sentido ao seu trabalho, acentuado
pelos modos distorcidos de avaliação”, analisa.
A psicóloga
ainda ressaltou a relação existente entre as doenças
físicas e psicológicas observadas na categoria
bancária e os problemas na organização
do trabalho. “O trabalho deveria ser visto como uma fonte
de prazer, mas este elemento está ausente na maioria
das vezes. Por isso, o trabalhador tende a desenvolver vários
mecanismos de defesa, tais como a aceleração do
ritmo de trabalho, que podem levar ao adoecimento físico
e psicológico”, ressaltou a professora. “Uma
das alternativas é o desenvolvimento de métodos
de avaliação mais qualitativos do trabalho. O
que há é uma organização baseada
no controle, que ameaça e exige uma qualidade total,
algo que só é possível às máquinas”,
diz Ana.
Segurança
- Segundo Ana, o estresse pós-traumático está
relacionado à vivência de situações
violentas no local de trabalho, como assaltos, ou situações
de sofrimento psicológico intenso, sendo de difícil
diagnóstico. “Temos dados que mostram que 66% dos
bancários se sentem tensos ou preocupados com a possibilidade
de assalto, e isso acontece por que, de fato, a violência
urbana é um problema que atinge fortemente a categoria,
especialmente nas agências. É preciso lutar para
que os bancos se responsabilizem realmente por expor seus trabalhadores
a esse ambiente de risco”, ressalta a pesquisadora. Os
sintomas do estresse pós-traumático incluem fobias,
tremores, calafrios, emagrecimento, tiques nervosos, entre outros.
Medidas
preventivas - Ana Magnólia ainda apontou algumas formas
de lutar contra o sofrimento psicológico e o conseqüente
adoecimento do trabalhador bancário. Segundo ela, fortalecer
a organização dos bancários em seus locais
de trabalho é uma das formas de diminuir o sentimento
de desamparo. “Além disso, é fundamental
que as pessoas consigam identificar as situações
de sofrimento psicológico e que conversem sobre o assunto.
O representante sindical pode e deve ter um papel fundamental
nesse trabalho, discutindo o assunto diretamente com a base”.
Para ela,
a saúde do trabalhador exige uma mobilização
individual e coletiva contra o sofrimento. “É essencial
buscar mecanismos para combater este sofrimento gerado no ambiente
de trabalho a fim de buscar modos para se proteger da violência
urbana, moral e psicológica, do ponto de vista individual
e coletivo”, conclui.
B)
Painel discute emprego e fim da discriminação
O economista
Miguel Huertas Neto, da subseção do Dieese da
Contraf-CUT, abriu a plenária sobre o tema apresentando
um painel com dados de pesquisas nacionais realizadas pelo instituto
e relatando as transformações desde 1995.
Ao longo
desses 15 anos, muita coisa mudou. Em 1995, cerca de 45% dos
trabalhadores de estabelecimentos bancários tinham 10
anos ou mais de tempo de casa. Já em 2008, esse percentual
caiu para 29%. A jornada de 30 horas era cumprida por 65% dos
trabalhadores na década de 1990, contra 46% atualmente.
A pesquisa também registrou aumento considerável
no nível de escolaridade e de contratação
de mulheres.
Em consulta
mais recente, o Dieese constatou que o emprego bancário
voltou a crescer em 2010, depois de uma pequena estagnação
em 2009. No período de janeiro a março deste ano,
foram registradas 11.053 admissões e 8.213 desligamentos,
saldo positivo de 2.840 postos de trabalho.
De acordo
com o Dieese, a maioria dos admitidos foi de pessoas até
30 anos, para a função de escriturário
(5.946 vagas), com remuneração inicial entre dois
e três salários mínimos. Sobre os demitidos,
a maior parte são homens ocupando cargos gerenciais,
com remuneração acima de quatro salários
mínimos, com nível superior completo. A maior
parte das demissões (47,6%) foi sem justa causa, seguida
de perto (43,88%) por demissões a pedido do trabalhador.
Discriminação
– Embora o número de mulheres e homens admitidos
esteja bem equilibrado (50,3% e 49,7%, respectivamente), a pesquisa
do Dieese aponta que a remuneração inicial é
visivelmente inferior para as trabalhadoras: R$ 1.770,00 contra
R$ 2.600 dos bancários.
A segunda
parte do painel sobre emprego foi apresentada pela professora
de Ciências Sociais da Unicamp Ângela Maria Carneiro
Araújo, que apresentou mais dados sobre a discriminação
de gênero e raça. “Hoje em dia há
mais homens em cargos de chefia, enquanto as mulheres ficam
em funções inferiores, sofrendo assédio
moral e pressão”. No que diz respeito à
ascensão na carreira, as trabalhadoras sofrem mais ainda
do que negros, segundo a professora. “A ascensão
das mulheres na hierarquia dos bancos é limitada. Ela
chega até a gerente das agências, mas depois são
poucas as que passam.”
Ângela
ressaltou a extrema importância da luta sindical contra
as barreiras da discriminação de mulheres, negros
e negras, ainda hoje, impregnadas nas empresas do sistema financeiro
brasileiro. “É inadmissível compactuarmos,
em pleno século 21, com um sistema que discrimina. O
avanço tem de passar pela ideia de que os sindicatos
não toleram mais qualquer tipo de discriminação.
Esse é um forte desafio”, diz a professora, destacando
que o nível de desigualdade é brutal na categoria.
A presença de mulheres no mercado de trabalho em geral
é de 47%. O número de mulheres que ocupam cargos
superiores fica entre 5 a 10%.
A dirigente
Neiva destaca a importância da transversalidade para debater
os problemas das mulheres, negros e pessoas com deficiência
não em mesas separadas, mas junto com os temas centrais.
“Por exemplo, a implementação de um Plano
de Carreira, Cargos e Salários que leve em conta que
as mulheres ganham menos, que os negros são excluídos”,
esclarece Neiva. “Resumindo, é colocar a igualdade
de oportunidades dentro dos temas centrais das negociações.”
Tempos Modernos
- A transformação do trabalho bancário
se dá pela reestruturação do capitalismo
na qual está inserida a reestruturação
dos bancos. “Esta transformação foi muito
rápida. Os bancos deixaram de ser movidos pelo trabalho
bancário com a crescente informatização”,
ressalta Ângela.
Outra mudança
radical, segundo a professora, foi o impacto do trabalho da
categoria que passa a ser quantitativo, onde os bancários
são transformados em vendedores de produtos, com exigências
de novas qualificações, cobranças fortíssimas
e com o incentivo à competição entre os
trabalhadores do sistema financeiro no mercado de trabalho.
Para Neiva
Ribeiro, não se justifica um setor que lucra tanto e
que levanta a bandeira da responsabilidade social fazer uso
desses expedientes. “Ao contrário, os bancos têm
é de contratar mais bancários.”
C)
SFN precisa trabalhar pelo desenvolvimento do Brasil
A economista
da subseção do Dieese no Sindicato dos Bancários
de São Paulo, Osasco e região, Ana Carolina Tosseti,
fez uma exposição em que destacou que a maioria
dos empregos está em bancos múltiplos, que têm
carteiras diversificadas e organização de controle
de todas as empresas. As famosas holdings que incorporam outras
empresas de previdência, seguros, capitalização.
“Eles incorporam outras instituições e os
funcionários também. O banco múltiplo controla
essas empresas, cria subsidiárias que fazem serviços
para a instituição financeira, mas é o
banco que controla. E os sindicatos de bancários não
representam todos os trabalhadores do conglomerado”, explicou
a economista . “Os bancos têm poder econômico
altamente centralizado e, portanto, é complexo o tema
da regulamentação do setor”, disse Ana ao
comentar a opção de falar sobre a questão
da intermediação financeira nos bancos. “O
país tem crescimento significativo (expectativa de 7%
em 2010) e projeções de que deve continuar nesse
sentido em 2011. E o sistema financeiro não tem condições
de financiar o que esse crescimento econômico vai exigir”,
informou a economista do Dieese, destacando que no Brasil, muitas
empresas se autofinanciam. “E isso não é
bom, porque empresas pequenas, de menor capital e que estão
começando não têm condições
de fazer esse investimento.” Ana Carolina demonstrou a
origem dos investimentos no país: a maior parte vem de
recursos próprios (o autofinanciamento). Entre os bancos,
o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social) entra com 37%, bancos públicos com 36% (onde
está o crédito de longo prazo com juros mais acessíveis)
e os privados com 27%. O restante vem do mercado de capitais.
“O
problema é que o patrimônio dos bancos públicos
é menor que o dos privados. Para um banco fazer uma intermediação
financeira, a instituição tem de estar forte,
capitalizada. O sistema financeiro público se alavanca
muito rapidamente”, afirmou Ana, questionando. “E
o que o governo vai fazer? Vai continuar capitalizando o banco
público para ter crédito no mercado. Mas só
os bancos públicos têm obrigação
com crédito. O governo vai deixar os privados fazendo
um crédito baixo, de curto prazo, apesar de poderem emprestar
muito mais de acordo com o seu tamanho?”
Provisionamento
– A economista do Dieese revelou que toda imposição
feita pelo Banco Central, pelo provisionamento de recursos,
é do mais puro interesse dos bancos. “O acordo
de Basiléia manda provisionar, o BC manda provisionar
mais e os bancos provisionam ainda mais. É uma despesa
que não existe para o banco. Entra como despesa efetiva
na hora de calcular o spread, mas não na hora de elevar
o lucro. É uma regra é prudencial, mas não
voltada para o desenvolvimento. Na hora de conceder crédito
tem de entrar o BNDES”, salientou Ana, indicando que no
balanço, o lucro líquido ajustado é o que
o banco coloca no caixa dele, tirando tudo que foi lançado
como despesa. “Ou seja, a provisão volta para o
caixa deles. Então, também é preciso regulamentar
as operações intangíveis que os bancos
lançam em seus balanços”, completou a economista.
D)
Confira os principais itens da pauta de reivindicação
•
Reajuste Salarial – 5% de aumento real, além da
inflação projetada de 5,71%
• PLR – três salários mais R$ 4 mil
(Pela nova proposta os empregados dispensados sem justa causa
ou que pedirem demissão terão direito a 1/12 do
salário por mês trabalhado ou a fração
superior a 15 dias a título de PLR.)
•
Piso – Salário mínimo do Dieese (R$ 2.157,88)
• Vales Alimentação e Refeição
– Salário Mínimo Nacional (R$ 510). Na cesta-alimentação,
o novo texto vai assegurar crédito por todo o período
de afastamento do bancário.
• PCCS – Para todos os bancários
• Auxílio-educação – pagamento
para graduação e pós.
• Emprego – Ampliação das contratações,
combate às terceirizações, aprovação
da Convenção 158 da OIT (contra demissões
imotivadas)
• Cumprimento da jornada de 6 horas
• Fim das metas abusivas
• Fim do assédio moral
• Mais segurança nas agências bancárias
• Previdência complementar para todos os trabalhadores
• Contratação da remuneração
total
• Igualdade de oportunidades